Crônica
Antes de viajar
Penso na estrada sempre como subida, desvio da coisa horizonte. Isso é noção de norte, que pode ser norte mesmo ou leste ou oeste. Azul norte céu: rumo. Sou fiel aos princípios do vento. Mas sei plantar passos em certos sonos da vida. Por isso, ponho coisas na mala vermelha: camisas pretas para a noite, camisas brancas para o calor dos centros, o perfume de sempre, aquele mesmo. Máquina fotográfica. Para os que não vão. Uma foto é tão certa, não é? As coisas estão lá, incontestes. Aqui, na vida da memória, tudo possui a cadência do imaginário: pode ser e pode não ser. Que se diga logo: a memória é uma fábrica de lugares imaginários. Eles não existem, mas estão sempre lá: lugar-pessoa, lugar-coisa ou lugar-lugar. Lugar-fato, também. E como se movem, como fluem, dentro da vastidão. Essa dança é um prazer, um momento desses de virar os olhos. A pele do viajante é desejosa de ligamentos: fios membranosos em curva ascendente. Podem se ligar com muitas pessoas, com poucas pessoas ou com apenas uma pessoa, o próprio viajante: fio embutido, novíssima tecnologia pré-histórica. É quando o conhecer se transforma em conhecer-se. Sim, toda viagem é feita de espantos, reais ou forjados – olhos arregalados diante de qualquer coisa. E lembrar-se disso, tempos depois, abrirá sorrisos. Olho para o céu, aviões caminham a passos largos. Mas eu também tenho asas: na mente. Não adianta apenas costurar asas na mala ou nos pés: é a mente que precisa voar. E nem é preciso conceber a poesia de um vôo cego: o meu tem data, hora e destino. Talvez a essência da partida seja o prazer em construir uma memória, por mais imaginária que seja. Pois parto em busca da duração do infinito, da chuva seca da primavera. Parto no navio-pássaro de fogo, ao som de Stravinsky e de algum violino da Infraero. Vou à procura de um lugar imaginário entre o rio e o mar da consciência. Eis o norte, eis o setentrional, a Ursa Maior do meu céu de agora.
Urik Paiva
15 de maio de 2009
Penso na estrada sempre como subida, desvio da coisa horizonte. Isso é noção de norte, que pode ser norte mesmo ou leste ou oeste. Azul norte céu: rumo. Sou fiel aos princípios do vento. Mas sei plantar passos em certos sonos da vida. Por isso, ponho coisas na mala vermelha: camisas pretas para a noite, camisas brancas para o calor dos centros, o perfume de sempre, aquele mesmo. Máquina fotográfica. Para os que não vão. Uma foto é tão certa, não é? As coisas estão lá, incontestes. Aqui, na vida da memória, tudo possui a cadência do imaginário: pode ser e pode não ser. Que se diga logo: a memória é uma fábrica de lugares imaginários. Eles não existem, mas estão sempre lá: lugar-pessoa, lugar-coisa ou lugar-lugar. Lugar-fato, também. E como se movem, como fluem, dentro da vastidão. Essa dança é um prazer, um momento desses de virar os olhos. A pele do viajante é desejosa de ligamentos: fios membranosos em curva ascendente. Podem se ligar com muitas pessoas, com poucas pessoas ou com apenas uma pessoa, o próprio viajante: fio embutido, novíssima tecnologia pré-histórica. É quando o conhecer se transforma em conhecer-se. Sim, toda viagem é feita de espantos, reais ou forjados – olhos arregalados diante de qualquer coisa. E lembrar-se disso, tempos depois, abrirá sorrisos. Olho para o céu, aviões caminham a passos largos. Mas eu também tenho asas: na mente. Não adianta apenas costurar asas na mala ou nos pés: é a mente que precisa voar. E nem é preciso conceber a poesia de um vôo cego: o meu tem data, hora e destino. Talvez a essência da partida seja o prazer em construir uma memória, por mais imaginária que seja. Pois parto em busca da duração do infinito, da chuva seca da primavera. Parto no navio-pássaro de fogo, ao som de Stravinsky e de algum violino da Infraero. Vou à procura de um lugar imaginário entre o rio e o mar da consciência. Eis o norte, eis o setentrional, a Ursa Maior do meu céu de agora.
Urik Paiva
15 de maio de 2009

4 Comments:
Interessante.
"a memória é uma fábrica de lugares imaginários"
Mandou bem de novo.
Microabraço.
.Lindo.
ô coisa linda, meu deusu
saudades da falta de pretensão literária!
apareçamos, hum!
bjoooooooo
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