Crônica
Sala de embarque
Urik Paiva
Há coisas por aí que não existem
Sala de embarque
Visita
Acordo ouvindo um chamado que vem de longe, vozes em coro amplificado, ecos que atravessam árvores e edifícios. São sei lá manhã cinco que horas e alguma coisa. Levanto ainda em caos, observo que existo, que tudo existe, (ou seja,) que tudo pode não existir. O som da água que jorra da torneira é constante e fluido como o chamado que vem de longe. Devem ser eles, esquecidos por meus pés presos ao asfalto. Traduzo a mim mesmo o que quero dizer e fazer: viagem. Fecho os olhos e os abro novamente quando estou no ônibus: do lado de fora, a paisagem saída da sexta de Beethoven. Fecho os olhos e os abro novamente quando desço em frente à velha casa, a casa desmemoriada de mim, de meus passos. A porta está aberta, ele surge calado, olhar baixo, poucas gramas de sorriso na boca, nove anos. Por trás dos olhos, que são como os meus, um sangue que é como o meu. Fecho os olhos e os abro novamente quando atravesso um jardim, puxando flores, falando com o cão. Entramos, eu e ele, num velho quarto, onde cortinas protegem do sol uma velha senhora de olhos apavorados: é minha velha tia, que dorme que sonha de olhos abertos numa cama. Talvez ela ainda tenha algo a dizer sobre o mundo. Sua linguagem são os ruídos finais de um tempo. Adormeço minhas mãos na suas, meus olhos nos seus. Minha linguagem é saudade de lenços a navios que partem. Sua pele enrugada esconde as artérias-estradas por onde corre seu sangue-viajante, ainda que devagar – abundantes sendo os caminhos já percorridos, sangue que não é o meu, mas que existe em mim, no calor de tudo. Suas mãos tremulam, são como bandeiras fincadas no topo de oitenta e muitos anos. Num grito silencioso, pronuncio meu nome, que ela parece ouvir apenas como o olhar. Meu irmão olha para ela com doçura, pensando que talvez aquele momento merecesse um sorvete de coco. Fecho os olhos e os abro novamente quando estamos, eu e ele, caminhando na praça da pequena cidade, na velha praça, por onde em lembrança caminho menino, cinco, seis anos. E há as árvores que contam mais histórias que qualquer homem. E há aqueles pássaros que sentem o mundo mais livremente que qualquer homem. E há qualquer homem caminhando, pagando os impostos, cantarolando, levando vacas e frutas para alguma parte. Há a igreja: torre, sino, a memória das missas, principalmente as dos mortos. Havia me esquecido que era por mim esquecida a cidade, com seu teto de nuvem e seu cheiro de silêncio. Estamos, eu e ele, num clarão do tempo. A velha tia está lá, na cama, mas está ao nosso lado, pois ao nosso lado cabem todas as possibilidades, todos os jorros, idas e retornos. Levo-o de volta a sua casa. Beijo sua testa. Até quando não sei. Não posso prometer nada. Nunca posso, nunca podemos. Deu-se a visita. Entremeada pelo silêncio. Iluminada pela memória. Fecho os olhos e os abro novamente quando estou de volta, papéis e papéis com anotações disso tudo. Por mais fechada que esteja uma porta, há que se ter a ousadia de bater nela, de ouvir uma recusa, mas entrar. Há que se sentar no sofá-ponteiro das horas e cantar aquela canção da última vez, no encadeamento vivo das coisas, por mais mortas que estejam. Então, faço a última visita do dia, a auto-visita, invasão ao espelho, o boa noite que se diz a si mesmo. Convido-me a entrar, a sentar, a tomar chá, a ouvir música, a conversar sobre a chuva e o sol, sobre as cidades, esta só se tem uma, sobre as pessoas das cidades, os ritos, os portos, lugares e seres que sempre esperam um navio com uma carga de relógios parados, sem ponteiros, redondos, e redondas são as lembranças, como são redondas as frases que agora escrevo: a caneta visita o papel, a lágrima visita o papel, a porta está fechada, mas há sempre quem nela bata, alguém que pisca os olhos e sorri, alguém que tem oitenta e muitos ou nove anos de idade, tem ou não o meu sangue, ouve ou não as minhas palavras: matéria de viagem, matéria de visita, motivo e relato de minha ruína que construo um pouco todos os dias.
Urik Paiva
09 de agosto de 2009
Passagem de ano
Ritos
Parece inevitável essa romaria, não? As avenidas apinhadas de bocas fechadas por onde nem entram moscas nem flores. Os sinos da igreja entrecortando o silêncio da manhã.
Rita toma banho, pinta as unhas, põe o vestido de domingo. O calor lhe obriga a carregar um lenço branco na bolsa. Está lá, pertinho do terço de madeira. Ela se olha no espelho, e a luz que entra pela clarabóia cinge-lhe o semblante. Agora o batom, Rita. E o xale, sobre a cabeça.
A moça se junta aos que caminham rumo às secções eleitorais. São homens e mulheres em procissão emudecida, de cabeça pendida para o chão. Têm fé: rezam. É pouco provável que chova, mas há quem espere uma resposta vinda do céu.
Rita vota pela primeira vez. O medo da tal máquina lhe faz tremular o corpo. O suor escorre pelo decote. É como uma noite de amor: você se despe, deita com algum rapaz bonito na cama, deixa-o beijar seu corpo – os dois num silêncio disciplinar, buscando um prazer epifânico, e depois de quinze minutos ele estará fumando um cigarro e dizendo adeus, não quero mais os olhos teus. Assim são os ritos. É tempo de vibrar o turíbulo, Rita, no templo ou no leito. É tempo de aspirar incenso, na castidade ou na paixão. E no fim: Ite, missa est.
Cuidado com os degraus, Rita. Segure firme os documentos. Cumprimente os conhecidos. Ande rápido, mas não corra. Entregue o título de eleitor nas mãos do homenzinho. Posicione-se na cabine de votação. Procure o lenço branco na bolsa para enxugar o suor. Mas se por um acaso encontrar o terço de madeira, reze. Assim seja.
(Logo que despertar, a cidade verá a imagem de Rita estampada em todos os jornais de segunda-feira. Rita: a moça que foi votar, viu a própria foto na urna eletrônica e virou pedra – os olhos arregalados e a boca agoniada buscando o ar.)