Literariedades

Há coisas por aí que não existem

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Crônica

Sala de embarque

Para Fernanda Meireles

Há sempre partidas. Está no vento a Sinfonia do Ir – e seus movimentos de dança e afeto. Escuta-se o dizer das turbinas de um avião: vamos agora, sem demora, olha a hora. Mesmo que voltando, vai-se. E ao nascer. E ao morrer. Travessia. Mas prefiro falar em céu que em estrada. A estrada é definida, arquitetada, e, portanto, limitada. O céu é descontínuo, rizomático, caminho imprevisível: é como, na verdade, um céu. E esta metáfora acabou de ir, mas pode voltar, e não se sabe onde está: Heisenberg e a incerteza do elétron: a nossa incerteza, antes e depois de partir. E por falar em (supostas) pequenas coisas, há partidas de todos os tamanhos, embora pequenez e grandeza sejam apenas símbolos. Uma crônica como esta, por exemplo, é uma grande ida pelo território de uma folha branca, mas uma pequena ida, se considerarmos a quantidade quilométrica de folhas brancas que existem mundo afora, embora seja uma pequena ida pelo território de uma folha branca, já que ela poderia ter dado muito mais voltas, aumentando consideravelmente o percurso, mas é também uma grande ida, se considerarmos a quantidade quilométrica de folhas que existem mundo afora que nem precisam ser percorridas por um só texto, porque afinal uma crônica é apenas uma crônica. De resto, há que se contar as agradáveis partidas de um dia: sair, beber, beber, beber, cair na areia da praia quando o dia está amanhecendo, tomar café numa padaria para espantar o álcool. E todos os olhares flutuantes e mãos-em-mãos são como partidas, para o amor ou para a sobriedade. E todos os espantos são partidas. E todas as não-partidas são partidas. Os seres do campo dizem, com razão, que tudo é caminho. Mandamento recém-inventado: não lutarás contra os caminhos, pois essa luta é também um caminho (um mandamento melhor elaborado do que aqueles bíblicos, certamente, pois Deus se esqueceu de dar uma justificativa a eles, ou talvez de Moisés tenha faltado o devido registro). Ressalte-se, agora, que partir é diferente de viajar, embora esses dois atos possam ter interseções. Eu vou continuar partindo, com todos os meus atos e omissões, mas há os que vão partir e viajar, e dentro da viagem, partirão, e ao voltarem, se voltarem, estarão partindo, e se não voltarem estarão também partindo (afinal, nunca sairão de onde vieram, derramados no front de um entre-lugar). Portanto aqueles que partem e aqueles que viajam podem se felicitar com as ante-partidas de toda partida-viagem, o que talvez envolva sair, beber, beber, beber, cair na areia, quando o dia estiver amanhecendo, tomar café numa padaria para espantar o álcool Toda partida, mais que toda viagem, possui uma sala de embarque, feita de ante-partidas, que não passam de partidas, menores ou maiores, que espalham nuvens para um deslocamento. Há os dias-sala de embarque, rasgos de tempo e espaço, que são profundamente: partidas. E todos os aeroportos do mundo se parecem: que isso seja lembrado para que sempre se leve uma coisa qualquer presa aos cabelos, estes que esvoaçam a cada partida, a cada dia, soltos no céu como ligamentos que transmitem o delicado dizer das turbinas de um avião.

Urik Paiva
Fortaleza – Brasília, 01-06 de outubro de 2009

Domingo, Agosto 09, 2009

Crônica

Visita

Acordo ouvindo um chamado que vem de longe, vozes em coro amplificado, ecos que atravessam árvores e edifícios. São sei lá manhã cinco que horas e alguma coisa. Levanto ainda em caos, observo que existo, que tudo existe, (ou seja,) que tudo pode não existir. O som da água que jorra da torneira é constante e fluido como o chamado que vem de longe. Devem ser eles, esquecidos por meus pés presos ao asfalto. Traduzo a mim mesmo o que quero dizer e fazer: viagem. Fecho os olhos e os abro novamente quando estou no ônibus: do lado de fora, a paisagem saída da sexta de Beethoven. Fecho os olhos e os abro novamente quando desço em frente à velha casa, a casa desmemoriada de mim, de meus passos. A porta está aberta, ele surge calado, olhar baixo, poucas gramas de sorriso na boca, nove anos. Por trás dos olhos, que são como os meus, um sangue que é como o meu. Fecho os olhos e os abro novamente quando atravesso um jardim, puxando flores, falando com o cão. Entramos, eu e ele, num velho quarto, onde cortinas protegem do sol uma velha senhora de olhos apavorados: é minha velha tia, que dorme que sonha de olhos abertos numa cama. Talvez ela ainda tenha algo a dizer sobre o mundo. Sua linguagem são os ruídos finais de um tempo. Adormeço minhas mãos na suas, meus olhos nos seus. Minha linguagem é saudade de lenços a navios que partem. Sua pele enrugada esconde as artérias-estradas por onde corre seu sangue-viajante, ainda que devagar – abundantes sendo os caminhos já percorridos, sangue que não é o meu, mas que existe em mim, no calor de tudo. Suas mãos tremulam, são como bandeiras fincadas no topo de oitenta e muitos anos. Num grito silencioso, pronuncio meu nome, que ela parece ouvir apenas como o olhar. Meu irmão olha para ela com doçura, pensando que talvez aquele momento merecesse um sorvete de coco. Fecho os olhos e os abro novamente quando estamos, eu e ele, caminhando na praça da pequena cidade, na velha praça, por onde em lembrança caminho menino, cinco, seis anos. E há as árvores que contam mais histórias que qualquer homem. E há aqueles pássaros que sentem o mundo mais livremente que qualquer homem. E há qualquer homem caminhando, pagando os impostos, cantarolando, levando vacas e frutas para alguma parte. Há a igreja: torre, sino, a memória das missas, principalmente as dos mortos. Havia me esquecido que era por mim esquecida a cidade, com seu teto de nuvem e seu cheiro de silêncio. Estamos, eu e ele, num clarão do tempo. A velha tia está lá, na cama, mas está ao nosso lado, pois ao nosso lado cabem todas as possibilidades, todos os jorros, idas e retornos. Levo-o de volta a sua casa. Beijo sua testa. Até quando não sei. Não posso prometer nada. Nunca posso, nunca podemos. Deu-se a visita. Entremeada pelo silêncio. Iluminada pela memória. Fecho os olhos e os abro novamente quando estou de volta, papéis e papéis com anotações disso tudo. Por mais fechada que esteja uma porta, há que se ter a ousadia de bater nela, de ouvir uma recusa, mas entrar. Há que se sentar no sofá-ponteiro das horas e cantar aquela canção da última vez, no encadeamento vivo das coisas, por mais mortas que estejam. Então, faço a última visita do dia, a auto-visita, invasão ao espelho, o boa noite que se diz a si mesmo. Convido-me a entrar, a sentar, a tomar chá, a ouvir música, a conversar sobre a chuva e o sol, sobre as cidades, esta só se tem uma, sobre as pessoas das cidades, os ritos, os portos, lugares e seres que sempre esperam um navio com uma carga de relógios parados, sem ponteiros, redondos, e redondas são as lembranças, como são redondas as frases que agora escrevo: a caneta visita o papel, a lágrima visita o papel, a porta está fechada, mas há sempre quem nela bata, alguém que pisca os olhos e sorri, alguém que tem oitenta e muitos ou nove anos de idade, tem ou não o meu sangue, ouve ou não as minhas palavras: matéria de viagem, matéria de visita, motivo e relato de minha ruína que construo um pouco todos os dias.


Urik Paiva

09 de agosto de 2009

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Crônica

Antes de viajar

Penso na estrada sempre como subida, desvio da coisa horizonte. Isso é noção de norte, que pode ser norte mesmo ou leste ou oeste. Azul norte céu: rumo. Sou fiel aos princípios do vento. Mas sei plantar passos em certos sonos da vida. Por isso, ponho coisas na mala vermelha: camisas pretas para a noite, camisas brancas para o calor dos centros, o perfume de sempre, aquele mesmo. Máquina fotográfica. Para os que não vão. Uma foto é tão certa, não é? As coisas estão lá, incontestes. Aqui, na vida da memória, tudo possui a cadência do imaginário: pode ser e pode não ser. Que se diga logo: a memória é uma fábrica de lugares imaginários. Eles não existem, mas estão sempre lá: lugar-pessoa, lugar-coisa ou lugar-lugar. Lugar-fato, também. E como se movem, como fluem, dentro da vastidão. Essa dança é um prazer, um momento desses de virar os olhos. A pele do viajante é desejosa de ligamentos: fios membranosos em curva ascendente. Podem se ligar com muitas pessoas, com poucas pessoas ou com apenas uma pessoa, o próprio viajante: fio embutido, novíssima tecnologia pré-histórica. É quando o conhecer se transforma em conhecer-se. Sim, toda viagem é feita de espantos, reais ou forjados – olhos arregalados diante de qualquer coisa. E lembrar-se disso, tempos depois, abrirá sorrisos. Olho para o céu, aviões caminham a passos largos. Mas eu também tenho asas: na mente. Não adianta apenas costurar asas na mala ou nos pés: é a mente que precisa voar. E nem é preciso conceber a poesia de um vôo cego: o meu tem data, hora e destino. Talvez a essência da partida seja o prazer em construir uma memória, por mais imaginária que seja. Pois parto em busca da duração do infinito, da chuva seca da primavera. Parto no navio-pássaro de fogo, ao som de Stravinsky e de algum violino da Infraero. Vou à procura de um lugar imaginário entre o rio e o mar da consciência. Eis o norte, eis o setentrional, a Ursa Maior do meu céu de agora.

Urik Paiva
15 de maio de 2009

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Crônica

Passagem de ano

Meu quarto está repleto de tons de azul: o lençol da cama, a rede que ganhei de presente, a calça jeans pendurada, o tubo de desodorante, a parede. Pilhas de livros cobrem as prateleiras, o chão. Sobre a mesa de xadrez, há um relógio de parede, próximo ao chaveiro da Torre Eiffel. Pares de sapatos apontam caminhos confusos, labirínticos. Por dentro deles, dona aranha tece umas teias engenhosas. Tomara que o celular não toque. Tomara que não reparem na calça manchada que vestirei mais tarde. Tomara que eu consiga terminar de ler o novo livro do Saramago, que fala sobre um elefante. O dia parece pesado. Está muito quente. A luz do sol entra pela janela com toda força, e o único vento é o do ventilador. Vento incapaz de me levar para longe. Para Maranguape, para um parque da cidade, para Amsterdã ou mesmo para a cozinha. Há um sentimento de silêncio ao meu redor. Coisas amplas e lentas vagam pela memória e pairam sobre as expectativas: são tarefas cumpridas e não-cumpridas, beijos dados e não-dados, palavras ditas e não-ditas, todos comprimidos em grandes caixas a serem jogadas em alto-mar. E eu nem sei o que Umberto Eco acha disso, o que Philip Glass acha disso. Talvez eu possa pegar um ônibus para qualquer lugar. Talvez eu possa ir caminhando. Talvez eu nem queira ir. Mas o tempo está correndo, me levando para o instante seguinte, deixando resíduos de mim no passado. O tempo faz de nós ruínas em construção. As horas são cheias de possibilidades invisíveis, de elos invisíveis. Esse paralelismo e essa continuidade são a sintaxe dos anos. As frases terminam, o texto, nunca. Levanto-me. Olho o céu azul pela janela, buscando aquela nuvem indefinida, aquele avião longínquo, aqueles pássaros apressados, ou mesmo um navio voador num cruzeiro niilista, ou uma chuva de homens de chapéu, como no quadro de Magritte. Não me reconheço no espelho do horizonte. Não tenho sorrisos guardados no bolso. Carrego nas mãos as palavras, como se fossem malas vazias.

Urik Paiva
24 de dezembro de 2008

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

Conto

Ritos

São estes os perigos do automatismo das práticas, da rotina embaladora, da práxis cansada.
José Saramago

Parece inevitável essa romaria, não? As avenidas apinhadas de bocas fechadas por onde nem entram moscas nem flores. Os sinos da igreja entrecortando o silêncio da manhã.


Rita toma banho, pinta as unhas, põe o vestido de domingo. O calor lhe obriga a carregar um lenço branco na bolsa. Está lá, pertinho do terço de madeira. Ela se olha no espelho, e a luz que entra pela clarabóia cinge-lhe o semblante. Agora o batom, Rita. E o xale, sobre a cabeça.


A moça se junta aos que caminham rumo às secções eleitorais. São homens e mulheres em procissão emudecida, de cabeça pendida para o chão. Têm fé: rezam. É pouco provável que chova, mas há quem espere uma resposta vinda do céu.


Rita vota pela primeira vez. O medo da tal máquina lhe faz tremular o corpo. O suor escorre pelo decote. É como uma noite de amor: você se despe, deita com algum rapaz bonito na cama, deixa-o beijar seu corpo – os dois num silêncio disciplinar, buscando um prazer epifânico, e depois de quinze minutos ele estará fumando um cigarro e dizendo adeus, não quero mais os olhos teus. Assim são os ritos. É tempo de vibrar o turíbulo, Rita, no templo ou no leito. É tempo de aspirar incenso, na castidade ou na paixão. E no fim: Ite, missa est.


Cuidado com os degraus, Rita. Segure firme os documentos. Cumprimente os conhecidos. Ande rápido, mas não corra. Entregue o título de eleitor nas mãos do homenzinho. Posicione-se na cabine de votação. Procure o lenço branco na bolsa para enxugar o suor. Mas se por um acaso encontrar o terço de madeira, reze. Assim seja.


(Logo que despertar, a cidade verá a imagem de Rita estampada em todos os jornais de segunda-feira. Rita: a moça que foi votar, viu a própria foto na urna eletrônica e virou pedra – os olhos arregalados e a boca agoniada buscando o ar.)


Urik Paiva